Por Joana Rogeiro Nina, Psicóloga e Terapeuta Familiar e de Casal
Quando alguém está em sofrimento psicológico, olhamos para essa pessoa: o que sente, o que pensa, o que faz. Tentamos perceber os sintomas e encontrar forma de ajudar. Muitas vezes fica de fora o que acontece à volta dela, nas relações e nos sítios onde vive.
A saúde mental vive-se em cada um, mas não se constrói só em cada um. Aprendemos a regular emoções com os outros, e é com eles que encontramos, ou não, segurança, pertença e apoio. Perceber o sofrimento de alguém obriga a olhar também para a família, o casal, a escola, o trabalho, a comunidade, o dinheiro que há ou não há ao fim do mês.
Do “o que se passa contigo?” para “o que está a acontecer à tua volta?”
Durante décadas, o sofrimento psicológico foi lido sobretudo a partir do indivíduo: sintomas, diagnóstico, personalidade, história pessoal. Tudo isto continua a contar. Só não chega.
A perspetiva sistémica olha para o que se passa entre a pessoa e os contextos onde está. Um sintoma mexe com as relações, e as reações dos outros mexem com o sintoma.
Imagine-se alguém com sintomas depressivos. Começa a isolar-se e fala menos com a família. A família, preocupada, pergunta mais, vigia mais, insiste para que retome as rotinas. A pessoa sente isso como pressão e afasta-se ainda mais. A família fica mais ansiosa e insiste mais.
Ninguém está a agir de má-fé. Cada um está a tentar cuidar, proteger, aguentar. A pergunta útil passa a ser outra: que dinâmica se instalou entre estas pessoas, e o que pode cada uma fazer de diferente?
Quando alguém sofre, a família também muda
Quando uma pessoa atravessa um período difícil, a vida da família muda com ela. As rotinas alteram-se, as tarefas redistribuem-se, as expectativas ajustam-se. Muitas vezes é provisório e ajuda a atravessar a fase má. Outras vezes prolonga-se, e cada um vai mudando de lugar sem dar por isso.
Há pais que reorganizam a vida inteira em função de um filho. Filhos que, cedo demais, passam a vigiar o estado emocional dos pais. Irmãos que decidem não dar trabalho, porque a casa já tem preocupações que cheguem. Casais onde sobra quem cuida e quem é cuidado, e cada vez menos o casal. Famílias que deixam de tocar em certos assuntos para proteger quem parece mais frágil.
Por baixo disto há medo, culpa, impotência, raiva, cansaço. E há amor e vontade de ajudar. O que de fora parece controlo, sobreproteção ou distância é, tantas vezes, a resposta possível a algo que ninguém sabe bem como gerir.
Daí um cuidado essencial em qualquer leitura sistémica: não culpar as famílias.
A família como recurso
Dizer que as relações influenciam a saúde mental não é o mesmo que responsabilizar pais ou parceiros por uma perturbação psicológica. O sofrimento nasce, em regra, de vários fatores ao mesmo tempo: biológicos, psicológicos, relacionais, sociais, culturais, ambientais. A família é um dos lugares onde ele aparece, e pode ser também um dos lugares onde se recupera.
É nas relações que aprendemos o essencial sobre confiança, proximidade, conflito, autonomia e reparação. E é nelas que podemos voltar a sentir segurança quando ela se perdeu. Uma relação suficientemente segura ajuda a regular emoções. Uma família que consegue falar do sofrimento deixa a pessoa menos sozinha. Um casal que distingue a pessoa da doença impede que o diagnóstico tome conta da relação. Uma rede que divide responsabilidades protege quem sofre e quem cuida.
E quem cuida de quem cuida? Os cuidadores também se cansam, têm medo, sentem-se impotentes. Também precisam de apoio e de espaço para as suas próprias necessidades. Reconhecê-las é o que torna o cuidado sustentável sem desgastar o resto da família.
Saúde relacional
Uma relação saudável tem conflitos, tensões e momentos maus. O que a distingue é haver segurança para discordar, admitir dificuldades e reparar o que se estragou. Para nos aproximarmos sem nos perdermos e nos afastarmos sem que isso soe a abandono. Para dizer “preciso de ti” e também “isto está a ser demasiado para mim”.
Quando há doença na família, isto pesa ainda mais. Ajudar quem sofre não deve obrigar a casa inteira a girar à volta da doença indefinidamente. Uma boa intervenção também protege os outros espaços: o casal, a relação entre pais e filhos, entre irmãos, a vida própria de cada um. Quem sofre continua a ser muito mais do que aquilo que lhe está a acontecer. E a família precisa de continuar a ter vida para lá da doença.
As condições de vida também são condições de saúde mental
A família não vive numa bolha. Uma criança é filha, mas também aluna, amiga, vizinha. Os adultos gerem afetos ao mesmo tempo que gerem horários, contas e expectativas. Tudo se cruza.
Quando uma família chega exausta à consulta, perceber como comunica ajuda. Mas também é preciso saber como vive: que recursos tem, que trabalho tem, quem cuida de quê, que apoio recebe, se tem sequer tempo para descansar ou pedir ajuda.
Um exemplo. Alguém trabalha num sítio onde a exigência não abranda e é suposto estar sempre disponível. Com o tempo fica irritável, cansado, sem concentração. Chega a casa sem energia para conversar ou acompanhar as rotinas. Do outro lado, o companheiro ou a companheira lê isso como desinteresse. Vêm as discussões e a sensação de solidão a dois, que por sua vez agravam o mal-estar no trabalho.
Trabalhar a regulação emocional desta pessoa pode ajudar. Mas se ninguém olhar para o trabalho e para o casal, a intervenção fica a meio.
Uma contradição que convém nomear
Nunca se falou tanto de saúde mental: equilíbrio entre vida pessoal e profissional, burnout, parentalidade consciente, autocuidado. E, no entanto, muitos dos contextos onde vivemos continuam montados contra isso mesmo.
Defendemos a conciliação e premiamos quem está sempre disponível. Falamos de burnout em organizações onde a sobrecarga ainda passa por dedicação. Pedimos parentalidade consciente a famílias que mal conseguem encaixar trabalho, escola, cuidados e casa no mesmo dia. Dizemos que as relações são importantes e não temos tempo para elas.
A resposta habitual cai sobre cada um: dormir melhor, fazer exercício, meditar, organizar o tempo, pôr limites, aprender a dizer não. São estratégias válidas e fazem parte de qualquer abordagem séria. O problema começa quando passam por suficientes para dificuldades que nascem, em boa parte, das condições em que as pessoas vivem. Não podemos continuar a pedir às pessoas que aprendam a tolerar contextos que precisam de mudar.
Quando a resiliência vira exigência
Precisamos de resiliência para atravessar perdas, mudanças e incerteza. Ninguém o discute. O risco está em tratá-la como resposta para tudo, como se perante qualquer dificuldade a solução fosse tornar a pessoa mais resistente.
Diante de alguém com condições de trabalho insustentáveis, numa relação abusiva, isolado, em precariedade ou esmagado pelos cuidados à família, chega perguntar como o ajudar a aguentar melhor? Talvez valha a pena perguntar também porque é que tem de aguentar tanto.
Esta pergunta muda o que se vê. Põe em cima da mesa mudanças nas relações, no trabalho, nas redes de apoio, no acesso a cuidados. Há sofrimento que se aprende a tolerar, e há sofrimento que só passa quando alguma coisa muda.
Uma responsabilidade que não é só de quem sofre
Promover saúde mental continua a passar por ajudar cada pessoa a criar recursos, reconhecer sinais de alarme e pedir ajuda a tempo. Passa por literacia, prevenção, diagnóstico rigoroso, intervenções com evidência, acesso atempado a cuidados e menos estigma.
E passa também por dar às famílias condições para conversar, dividir tarefas e ter apoio. Por escolas onde crianças e jovens se sintam seguros e acompanhados. Por locais de trabalho que respeitem os limites humanos, em vez de deixarem o bem-estar dependente de quanto cada um aguenta. Por comunidades que contrariem o isolamento. E por reconhecer que habitação, pobreza, desigualdade, violência, educação e acesso à saúde também são temas de saúde mental.
Outras perguntas
Quando alguém nos diz que não está bem, perguntamos como se sente, de que precisa, o que pode fazer por si. Faz sentido. Mas vale a pena perguntar também: como estão as tuas relações? Com quem podes contar? O que na tua vida está a pesar?
E, do lado de quem acompanha: quem está disponível para ajudar? Quem cuida de quem cuida? Que padrões estão a agravar as coisas e quais estão a proteger? Que condições têm de mudar, em vez de ser sempre a pessoa a adaptar-se?
Estas perguntas não substituem a avaliação clínica nem o acompanhamento individual. Juntam-se a eles.
Saúde mental também é o que acontece entre nós
Como psicóloga e terapeuta familiar e de casal, interessa-me o que se passa dentro de cada pessoa. E interessa-me tanto quanto isso o que se passa entre pessoas: entre pai e filho, entre dois parceiros, entre irmãos, entre uma família e a escola, entre alguém e o seu trabalho, entre cada um de nós e a comunidade onde vive.
É aí que muitas dificuldades ganham sentido. E é muitas vezes aí que se encontra por onde mudar.
O desafio é olhar para a pessoa sem perder a família, para a família sem perder cada um, e para ambas sem esquecer o mundo onde vivem.