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Jul 11, 2022 | Media | 0 comments

Ser pobre é uma via rápida para a doença mental?

Um artigo da CNN Portugal que contou com a colaboração da psicóloga clínica e fundadora da Academia Transformar, Filipa Jardim da Silva.

Ser pobre é uma via rápida para a doença mental? A pandemia foi “cocktail fatal” para mostrar que sim

Insegurança à custa de recursos imprevisíveis e escassos – risco de perder o emprego ou de não ter o suficiente para assegurar as necessidades. Sensação de perigo pelo desconhecimento do vírus. Impotência na hora de agir – porque é preciso continuar a ir trabalhar. Perceção de injustiça face outros que não passam pelo mesmo – porque, por exemplo, ficam protegidos pelo teletrabalho. Aponte estes elementos. São os ingredientes da receita de um “cocktail fatal para a doença mental”, diz Filipa Jardim da Silva.

Em conversa com a CNN Portugal, a psicóloga clínica não hesita: “Um dos fatores de risco para o desenvolvimento de problemas de saúde mental passa pelas condições socioeconómicas. As classes mais desfavorecidas são muitas vezes classes com menos informação. Estão mais em modo sobrevivência, num dia a dia orientado para essa sobrevivência. Não têm sequer o conceito de bem-estar nas suas rotinas.”

Quando a prioridade está em garantir o sustento, o restante passa para um segundo plano. E no restante inclui-se um conjunto muito variado de elementos que contribui para a chamada saúde mental – como o simples gesto de dar um passeio ou de pedir ajuda especializada.

E, em muitos casos, a alimentar um problema ainda maior, como a depressão.

A corrida invertida (e o acesso desigual ao tratamento)

Na análise das desigualdades sociais, uma das metáforas recorrentes é a da corrida: se partíssemos todos da mesma linha, conseguiríamos chegar todos à meta ao mesmo tempo? A resposta recorrente é “não”. E agora, com a pandemia, os especialistas acreditam que há quem esteja a recuar ainda mais em relação à marca de partida.

Exemplos não faltam, a começar pelo acesso ao tratamento da doença mental. “Estas pessoas economicamente mais frágeis estão única e exclusivamente dependentes do SNS, onde o acesso não é assim tão simplificado”, diz Filipa Jardim da Silva, insistindo que muitos destes pacientes acabam a ver ser-lhes prescritos ansiolíticos, algo que deveria ser “a última linha de intervenção”. Já o privado, para eles, não passa de uma miragem, que não podem pagar.

Doença mental não tem classe social

Apesar deste retrato, há uma ideia que convém sempre vincar: a saúde mental é algo transversal à sociedade e, como tal, não exclusiva de quem tem maior fragilidade económica. A prova disso é que têm chegado aos consultórios dos psicólogos pacientes com forte poder de compra que “têm desenvolvido sequelas e procurado ajuda ‘a posteriori’”, nomeadamente com transtornos depressivos ou ‘burnouts’ [esgotamento causado pelo excesso de trabalho], segundo Filipa Jardim da Silva.

A grande diferença é apenas uma: quem tem dinheiro consegue pagar a ajuda que necessita; quem não tem não sabe, muitas vezes, sequer onde encontrá-la.

 

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